AFERIDOR DE MEDIDAS

inimigo
Um amigo tinha o costume de dizer:
— Bateu, levou!
Um dia perguntamos se ele admirava os mal-educados que tanto criticava.
Imediatamente ele se posicionou em contrário:
— É claro que não!
Então questionamos outra vez:
Se não os admira, por que você os imita?
Ele ficou um tanto confuso, pensou um pouco e respondeu:
— É, de fato deveríamos imitar somente o que achamos bonito.[1]

No Evangelho de Mateus, encontramos a seguinte mensagem “Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe a outra[1].

A proposta de Jesus não é a da omissão perante o crime; a mensagem não é da indiferença perante o abuso ou à arrogância alheia.

Não!

No Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos o esclarecimento de que Jesus não interditou a defesa, mas condenou a vingança.

A mensagem do Evangelho é para a ação, direcionada ao Bem.

Na concepção cristã, caridade não se circunscreve na tarefa de impedir alguém de fazer o mal, como também no propósito de conduzi-lo no caminho do bem.

Para conduzir, o cristão precisa partilhar o caminho.

O problema é que o homem, ainda, não aprendeu a se defender; e, assim, muito longe se encontra do desafio de impedir alguém de fazer o mal.

O homem e as instituições concebem que impedir alguém de fazer o mal é enclausurá-lo, encarcerá-lo, torturá-lo.

Não é verdade?

Sempre assistimos o debate: diminuição da menoridade; incremento ou aumento da pena; pena perpétua e, até mesmo, pena de morte.

Em verdade, o investimento para a recuperação e educação do indivíduo criminoso é diminuto.

No Livro Ação e Reação, capítulo 10 — Entendimento, deparamo-nos com oportuno comentário do benfeitor Silas sobre o inferno:

“O inferno, a rigor, é obra nossa, genuinamente nossa, mas imaginemo-lo, assim, à maneira de uma construção indigna e calamitosa, no terreno da vida, que é Criação de Deus. Tendo abusado de nossa razão e conhecimento para gerar semelhante monstro, no Espaço Divino, compete-nos a obrigação de destruí-lo para edificar o Paraíso no lugar que ele ocupa indebitamente”. (Destaque nosso)

Então, o inferno é fruto do abuso da razão e do conhecimento pelo homem?

Como assim?

Obviamente, Deus não criou o satanás. Se não é obra divina, como surgiu?

Consta na Bíblia, em Ezequiel 28, que Deus criou um anjo de luz, conhecido por sua qualidade definida como: aferidor de medidas. Satanás também é conhecido como acusador, caluniador, etc..

Esse mesmo anjo caiu do céu, porque pecou ao achar que seu brilho era maior do que o Criador, conseguindo convencer considerável número de anjos sobre esta alucinação.

Conjugando o narrado por Silas no Livro Ação e Reação com a qualificação bíblica de Satanás, veio-nos à mente uma especulação.

O homem ainda não sabe convier com o uso da razão.

Como defende Allan Kardec[2]: “O que se chama razão não é muitas vezes senão orgulho disfarçado e quem quer que se considere infalível apresenta-se como igual a Deus”.

Ainda vacilante no uso da razão, quando começa a distinguir o certo do errado, o homem geralmente sucumbe à arrogância e, em nome da justiça, começa a julgar os outros, a caluniar, a separar os indivíduos.

Esquecido da ‘lei de amor’, como ‘aferidor de medidas’, costumamos encarcerar, torturar, separar.

Em nosso cotidiano, quantas vezes o nosso coração endurece por arremessar o olhar julgador na conduta alheia? E, não raro, somos visto como alguém que cheira mal, com tridente nas mãos, fogo nas ventas, vomitando impropérios, etc..

Como pescador de falhas, de crimes, lançamos o olhar como anzol guiado por arpão ou fisga, à procura do erro, da falha, do crime.

E vegetamos, arrastando esse peço desnecessário, como para saciar a se de julgar, discriminar e separar as pessoas.

Esquecemos que, como aferidor de medidas, o julgamento sem amor nos prende ao acusado, ao caluniado, e, assim, abrimos mão do céu para cair no inferno do julgamento insensível.

E, num automatismo deprimente, imitamos aqueles que mais criticamos.

No contato com o erro e a maldade alheia, percebemos que ainda somos inábeis para materializar os preceitos da dignidade humana e da justiça, pelo esquecimento da lei do amor.

Admiramos a verdade, os preceitos de justiça, mas usamos instrumentos indevidos para colocá-los em prática.

O segredo é agir, é impedir o mal pelo exemplo da ação no bem.

———

Como ser feliz nesta situação, se nos apegamos ao erro, ao crime?

Não estaria aí a mensagem de que o anjo caiu do céu? Não seria por este motivo que somos infelizes?

Ainda é tempo de acordar, pois se, ao descobrir que caímos do céu, devemos relembrar que em verdade somos anjos, e que o nosso domicílio real é o céu.

A melhor forma de nos defender é resguardar a própria dignidade. Somente com amor podemos ajudar alguém a se libertar do mal, tornando-se indispensável a autoestima cristã para reconduzirmos o semelhante para o caminho do bem.


[1] http://www.momento.com.br/pt/ler_texto.php?id=3552&stat=0. Acessado no dia 24/07/2013.[2] Evangelho de MATEUS, cap. V, vv. 38 a 42.
[3] Allan Kardec. Introdução. Livro dos Espíritos.
Anúncios

Uma resposta para AFERIDOR DE MEDIDAS

  1. Valeria disse:

    Nossa Ricardo que grandes verdades! Precisamos refletir mais e falar menos.
    Assim procedendo não sofreremos tanto! Gostei demais!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s