CAPÍTULO VI — O HOMEM E SUAS CRENÇAS

“Ideologia é toda crença que se adota para o controle dos comportamentos sociais e coletivos. Crença é a noção que vincula a conduta e que pode ou não ter validez objetiva[1].”

O objetivo deste capítulo é abordar a influência que a ‘cultura humana’ exerce sobre a ‘conduta’, especificamente no que se refere às crenças sociais.

As crenças dirigem a vida do homem e, na maioria das vezes, este se deixa guiar e se complicar cegamente. A conduta pode ser influenciada por condicionamentos e valores culturais. Contudo, não aniquila integralmente a vontade do indivíduo.

Quantas culpas carimbadas pela sociedade e pela religião? Quantos sofrimentos desnecessários, cuja causa reside na vinculação irracional a preceitos e preconceitos religiosos?

Normalmente, o homem se aprisiona a determinado ponto de vista, sem questioná-lo. Desta postura decorrem aflições e que podem ser evitadas com um pouco de sabedoria.

Sofre-se, muitas vezes, de forma desnecessária.

Numa análise isenta, não há como negar que o conhecimento religioso é a maior fonte de crenças, muitas delas repressoras e sem validez objetiva. Nos preceitos religiosos predominam as palavras punição, sofrimento, pecado, inferno, culpa. Impõem-se certas regras como corretas e o indivíduo até se sente culpado, por mais que não concorde com tais preceitos ou ordenamentos.

Numa análise isenta, não há como negar que o conhecimento religioso é a maior fonte de crenças, muitas delas repressoras e sem validez objetiva.

Sobre as causas das aflições, como dito alhures, a maioria reside no presente, muito embora a maioria focalize a atenção nas que se encontram no passado ou na reencarnação passada.

Como fuga psicológica, o homem, não raras vezes, procura se desvencilhar da responsabilidade atual olhando para o ontem e/ou transferindo a gênese dos erros a outras pessoas, instituições ou fantasias.

Infelizmente, preferimos permanecer iludido.

No entanto, há que se considerar o fato de que intimamente o homem está destinado à auto-realização, na satisfação de suas necessidades fisiológica, social e espiritual. Como é natural, quando não obtém sucesso na vida, fica frustrado e se deixa morrer emocionalmente.

Então, pergunta-se: Por que determinadas pessoas não alcançam a prosperidade? Por qual razão certas pessoas se sentem rejeitadas, apesar de toda a atenção que lhe é dispensada? Qual a causa de se pensar que a vida é sofrimento? Qual o motivo do insucesso numa conquista amorosa, quando o indivíduo apresenta todas as condições objetivas para a realização de seu empreendimento? Por que se pensa que a mensagem cristã é de conformismo? O que justifica o fato de se pensar que cidadania corresponde à rebeldia?

Em síntese, por que quase sempre o ser humano não consegue realizar seus sonhos?

Na maioria das vezes, não os realiza por acatar, sem qualquer reflexão, crenças sociais que inviabilizam ou boicotam a tentativa de vitória. E, ao abraçá-las, torna-se dogmático, tendo resposta para qualquer assunto. Torna-se, assim, inflexível e aparentemente auto-suficiente. E não se dá conta da própria miserabilidade.

O homem que não revê seus posicionamentos, que não se habilita a pensar com sabedoria, caminha pelo mundo preso a preconceitos derivados das crenças típicas de sua época, do conhecimento popular, dos preconceitos dos pais e das convicções que brotaram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento de uma razão deliberada. 

Apesar de Jesus ter levantado a bandeira da dignidade (“vós sois deuses”), a maioria dos cristãos abraçou a interpretação de que o homem deve se conformar e aceitar passivamente as ideologias terrenas, à espera do reino dos céus. Neste conformismo, o indivíduo abre mão de sua liberdade e, como conseqüência, de sua dignidade, resultando na escravidão da alma.

 Sem reflexão não há livre-arbítrio, apenas sujeição e manipulação. A conscientização é o caminho para a verdadeira liberdade.

O Livre-arbítrio foi, filosoficamente, debatido no transcorrer da história. Na Grécia, a liberdade se circunscrevia na atuação política que a tolhia pela exclusão desta vontade coletiva os escravos e os estrangeiros. Situação de escravidão similar à encontrada nos romanos. A liberdade convivendo com a escravidão. A liberdade a que tem direito o homem, segundo Kant, diz respeito à vontade, e não deve ser bloqueada por nenhum tipo de heteronomia, ou seja, sem intervenções de outrem. Para Spinoza, associada à liberdade, está também a responsabilidade. Para Leibniz, a conduta humana é livre apesar do princípio de causalidade que rege os objetos do mundo material. Para Schopenhauer, não há conduta absolutamente livre, sendo que a liberdade é uma ilusão a sofrer as influências fenomênicas do mundo da causalidade.

Não há como negar que a liberdade humana não deve ser bloqueada por intervenções externas. No entanto, o indivíduo sempre foi vítima de lavagem cerebral, seja na família, na escola, na religião e sociedade.

Como entender a obediência à ordem do rei do Egito no sentido de matar todo recém nascido do sexo masculino, por temor a Deus[2]? Como entender o culto dos ditadores e dos governantes como deuses, a ponto de alguns ceder a própria esposa para relação sexual com o imperador? Como aceitar um culto pagão a celebrar a orgia? Como admitir a possibilidade de guerra santa e conciliar a doutrina cristã com a condenação à morte de hereges?

Uma falsa crença pode ser adotada até para matar o próximo e, mesmo assim, alcança aplauso social.

A título de exemplo, vale mencionar que, por um longo período na história, o homem se sentiu no direito de matar a mulher em caso de traição. Aquele que matasse uma mulher – esposa, namorada, amante, ex-esposa, ex-namorada ou ex-amante – tinha uma saída fácil para se livrar da cadeia: argumentar que agiu em ‘legítima defesa da honra’. Apesar de absurda, prevaleceu a tese de que a mulher é propriedade do homem e a ele se encontrava subordinada e que, ao trair sua confiança, merecia pagar com a vida. Lavar a honra com sangue. Apurou-se[3] 54,7% de absolvições em processos criminais em que se utilizou a tese de Legítima Defesa da Honra como defesa.

De fato, é um absurdo. Todavia, ficaremos mais surpresos quando analisarmos as nossas íntimas crenças, a nos envolver negativamente, às quais nos entregamos livremente.

Esta submissão fria e passiva é fruto da manipulação mental associada a complexos históricos de culpa, não raras vezes usada estrategicamente pela elite governante. Os governantes, quase sempre, não são movidos por propósitos dignos. No mais das vezes, quem exerce o poder terreno desconsidera a dignidade humana, e se arvora no direito de manipular consciências.

A verdade é que os poderes constituídos se apropriam das ideologias compatíveis com seus interesses, para fundamentá-los.

O humanismo colocou o homem em destaque na sociedade, sendo que, até então, ele era um artífice de menor valor. Contudo, as idéias absolutistas derrubadas por Descartes vieram à tona com outra feição, falsamente em nome do povo e por ele autorizadas. A ideologia da revolução francesa (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) nasceu com a meta exclusiva de destronar a coroa e o sistema absolutista. Antes, o homem era escravo do Estado e da Igreja. Depois, tornou-se subjugado pela lei, sob uma pretensa democracia. O rei antes dizia aos súditos: “por graça de Deus”. Hoje, os governantes gritam: “por vontade do povo”. A partir de então, os detentores do poder encontraram outros instrumentos de dominação. Os interesses do povo nunca foram respeitados. A estratégia do regime democrático é: “…conquistar as massa pela vaidade, fazendo-as crer que são elas que decidem, elas que mandam”.3

O Espiritismo é, sem dúvida, a doutrina da liberdade e da responsabilidade individual. Todavia, o sonho só se concretiza no dever cumprido em favor do progresso integral. A proposta é abandonar qualquer tipo de ilusão, e uma delas é a pretensão de liberdade sem qualquer esforço e sem autoconhecimento.

Na gênese das arbitrariedades, sabe-se que o indivíduo quando ocupa o poder terreno, seja representando uma instituição familiar, política ou religiosa, despreza a consciência e procura, a todo custo, manter-se no poder e subjugar a mente dos administrados, não lhes admitindo a liberdade para pensar.

Na gênese das arbitrariedades, sabe-se que o indivíduo quando ocupa o poder terreno, seja representando uma instituição familiar, política ou religiosa, despreza a consciência e procura, a todo custo, manter-se no poder e subjugar a mente dos administrados, não lhes admitindo a liberdade para pensar.

Crítica esta dirigida a todos nós Cristãos, porquanto, com raras exceções, utilizamos o ideal cristão para manter o poder terreno. Eusébio, referindo-se à grande maioria de almas indecisas, formadas à luz da razão, mas escravizadas à tirania do instinto, alerta para o fato de que:

“Suportamos administradores arbitrários e ignominiosos, de Nero a Diocleciano, porque tínhamos fome de poder, e quando Constantino nos abriu as portas da dominação política, convertemo-nos de servos aparentemente fiéis ao Evangelho em criminosos árbitros do mundo. Pouco a pouco esquecemos os cegos de Jericó, os paralíticos de Jerusalém, as crianças do Tiberíades, os pescadores de cafarnaum, para afagar as testas coroadas dos triunfadores, embora soubéssemos que os vencedores da Terra não podem fugir à peregrinação ao sepulcro.”

Sendo assim, no transcorrer dos séculos, o homem se apoderou do poder para manipular e dominar a mente, sem qualquer propósito de educação do ser humano. Hoje, grande parte dos dominados são os autoritários de ontem.

Então, devemos olhar com muito cuidado e analisar com perspicácia as determinações humanas. As normas sociais e/ou morais exercem sobre o homem um domínio a ponto de mantê-lo na inércia ou miséria psicológica.

As normas foram encaradas com desconfiança pelos pensadores, a ponto de intelectuais desprezá-las por manter o povo na ignorância. Então, devemos criticar as crenças mais íntimas, pois elas podem estar atrapalhando o nosso progresso material, intelectual e, sobretudo, nossa libertação emocional.

Então, devemos criticar as crenças mais íntimas, pois elas podem estar atrapalhando o nosso progresso material, intelectual e, sobretudo, nossa libertação emocional.

O homem próspero é aquele que desfruta de inteligência emocional, ou seja, lida eficazmente com as pessoas e com suas emoções, fazendo uma reciclagem no sentido de rever velhos hábitos e crenças a ponto de rejeitá-los ou associá-los a uma reação produtiva.

Freud denomina de Superego o censor sobre a conduta, isto é, sobre os impulsos e os desejos do id, que a cultura inibe o ego de realizar. Todavia, não se pode o equiparar com o Superconsciente, porquanto este se baseia numa esfera mais alta da mente, em contato direto com os princípios mais nobres, onde estão localizadas as leis divinas e os objetivos superiores, para desabrochar de forma consciente.

Os princípios cristãos representam a base de uma sociedade justa e harmônica. Jesus nos apresentou o potencial que guardamos em nossa intimidade. Foi crucificado por causa do predomínio que o inconsciente individual ou coletivo exercia e exerce sobre o homem, ou seja, a influência que os traumas, os prazeres, os desejos carnais e as tendências viciosas exercem sobre o consciente humano.

O Cristianismo, como libertação, repudia a manipulação da mente humana. É campo propício para a germinação de latentes potenciais divinos no ser humano. É o retorno à concepção original de ética, no sentido da procura ininterrupta pelo aprimoramento da moradia humana. Jamais considerada como Código a ser cegamente obedecido, mas, sobretudo, aprimorado através da reflexão e cidadania.

Jesus não se submeteu passivamente às leis terrenas, tanto que efetuou cura aos sábados e não abjurou seus ideais. Também, não foi covarde na crucificação, mas um líder firme no propósito de mudar o mundo em que vivemos.

Por que não refletir sobre as crenças que alimentam o homem?  Por exemplo: “Não mereço viver”; “Só através de muito esforço se consegue algo nesta vida”; “O dinheiro é pecaminoso”; “Nada vem de graça”; “Tenho que me preocupar apenas com os interesses do céu”; “Pau que nasce torto, até a cinza é torta”; “Não há rosas sem espinhos”; “O fruto proibido é o mais saboroso”; “Sou idiota e incompetente”; “O pecador vai para o inferno”;  “A felicidade não é para este mundo”; “Quando está tudo bem as coisas desandam”;  “Não consigo fazer isto”; “Discordar do pai é falta de respeito”;  “A distância fortalece o amor”; “Nunca deixes o certo pelo incerto”; “Quem rouba um ovo, rouba um boi”; “Alguns grupos étnicos são intelectualmente inferiores”;  “Crime e pobreza estão interligados”; “Os ricos são inescrupulosos”.

Portanto, as pessoas vivem de crenças. Elas nem sempre tem validade objetiva. Resultam de informações arquivadas ao longo da vida e processadas automaticamente, sem qualquer reflexão. As piores são as autolimitadoras, isto é, a convicção subjetiva em torno de algum tipo de limitação. Superá-las é o maior obstáculo para a realização de todo o potencial, porquanto, apesar de falsas, influenciam a vida emocional e social do homem.

O homem não pode se submeter passivamente à ideologia ou a discursos ideológicos, deixando-se levar por crenças ou medos que arruínam o bem-estar integral. Quem não se lembra do discurso terrorista de Bush?

Em suma, o homem sofre a influência social e emocional que herda ‘irrefletidamente’ da cultura humana e, quase sempre, vive em constante angústia existencial. Não raro, vê-se vítima da miséria social que o envolve e a que se entrega. Até mesmo preceitos evangélicos são deturpados para atender a interesses escusos de uma sociedade nefasta.

Marco Aurélio Mendes[4] elucida que:

“As crenças que temos sobre nós mesmos, sobre o mundo e sobre o futuro, determinam o modo como nos sentimos: o que e como as pessoas pensam afeta profundamente o seu bem-estar emocional”.

A Psicologia Espírita vem nos alertar acerca desta realidade. O homem deve refletir sobre suas crenças, numa incessante inquietação moral, rumo ao aprimoramento ético e espiritual. Mesmo envolvido nas crenças e preceitos sociais, subsiste a capacidade de optar, de escolher e de agir segundo a Vontade Maior. Essa capacidade despertada para a Ética Cristã leva à verdadeira liberdade. Permite romper algumas algemas impostas pela sociedade.

A culpa deve ser a reflexão para o progresso individual, a levar à reparação e arrependimento. Jamais para nos aniquilar ou desprestigiar. Errar faz parte da caminhada humana. Por pior que tenha sido o erro, o homem não pode deixar que esta reflexão se forme no inconsciente um complexo de culpa.

A culpa deve ser a reflexão para o progresso individual, a levar à reparação e arrependimento. Jamais para nos aniquilar ou desprestigiar.

Quando o homem procura entender sua destinação eterna, compreende imediatamente que, mesmo Paulo[5] tendo desabafado “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço”, quando preso nos iluminou com o ensinamento de que “Pelo qual sou embaixador em cadeias; para que possa falar dele livremente, como me convém falar[6].” Ou melhor, com a sublimação diária, o homem obterá a liberdade integral, mesmo que seu corpo esteja recluso na penitenciária.

No dizer de Emmanuel: “A felicidade tem base no dever cumprido”. Ora, o homem não conseguirá ser feliz sem a verdadeira liberdade, e está também se obtém com o cumprimento das obrigações para consigo mesmo e com a sociedade.

      Acima de tudo, o homem deve se proteger emocionalmente. O que se deve fazer não é o que a sociedade determina, mas o bem que a nossa consciência cristã indica. Mesmo que procurem nos manipular, temos o dever de sorrir em busca de saúde psíquica e espiritual.

      Retomando o estudo sobre as influências que a vontade sofre, faz-se necessário direcionar a atenção para as motivações ocultas. No próximo capítulo, iremos abordar o tema ‘mente egóica’.  Este estado mental é caracterizado pela prisão a que se entrega o homem por se identificar indevidamente aos padrões culturais, ao ‘persona’ e ao ‘superego’. Este fenômeno ocorre quando o homem se apega ao ‘papel social’ ou a um ‘moralismo aviltante’, abdicando de sua própria liberdade e felidade.

      É o que faremos no próximo capítulo, no capítulo ‘Mente Egóica.


[1] ZAFF ARONI, Eugênio Raúl e PIERANGELI, José Henrique. Manual de direito penal brasileiro; parte geral. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999.
[2]  Êxodo, 1: 17
[3] http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG62598-6014,00.html. Acessado no dia 18 de março de 2008.
[4] Mendes, MARCO AURÉLIO. In TERAPIA COGNITIVA: NOVAS PERSPECTIVAS. Site: http//www.nunap.com.br/artigos/terapia%20cognitiva.html. Acessado no dia 17 de fevereiro de 2.008
[5] Romanos, 7:19
[6] Efésios, 6 : 20
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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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Uma resposta para CAPÍTULO VI — O HOMEM E SUAS CRENÇAS

  1. Silvania Maciel disse:

    Ricardo e equipe, é muito bom ver como vocês estão de desenvolvendo, apesar da distancia a saudade nos torna muito próximos, favor cadastrar meu novo email para receber as menssagens.
    Abraços a todos os irmãos de fé

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