COLÔNIAS ESPIRITUAIS—DIFERENTES ESTADOS NA ERRATICIDADE

 
  “E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá”. Jesus[1]

 

A novela ‘Escrito nas Estrelas’ e o filme ‘Nosso Lar’ fizeram voltar à tona a seguinte pergunta: Existe vida após a morte? Caso exista, como será a vida espiritual? Com que realidade se defrontará o homem? É possível a existência de ‘colônias espirituais’?

É verdade que para muitos, esse assunto não é importante. Alguns até afirmam:

— Que me importa? O que me interessa é o presente!

Pois bem!

Com todo respeito a você leitor, permita-nos tecer alguns comentários a respeito do tema sob a ótica espírita, fundamentados não só em notícias trazidas pelos amigos espirituais, como em textos Evangélicos.

Veja bem: este artigo não guarda a pretensão de convencê-lo. O escopo é apenas favorecer a reflexão.

De início, faz-se necessário definir o que seja erraticidade. Para a Doutrina Espírita este termo significa o período compreendido em que se encontra o Espírito entre duas encarnações. Este estado é mais ou menos ditoso de acordo com a postura moral adotada pelo indivíduo quando encarnado na Terra. Melhor dizendo: os espíritas sabem que para chegar e permanecer feliz no plano espiritual, indispensável que o espírito tenha aproveitado bem a condição de homem na Terra. É, assim, o estado dos espíritos não encarnados, sujeitos ainda à necessária reencarnação. Geralmente, neste período o Espírito faz um balanço de seu patrimônio espiritual, onde se conscientiza acerca de seu desenvolvimento moral. Deste balanço, normalmente nasce a vontade de renascer para novos aprendizados, indispensáveis à evolução espiritual.

No prefácio do livro ‘Os mensageiros’, Emmanuel nos presenteia com belo resumo acerca deste assunto, no qual consta a seguinte frase mestra:

“Ninguém pode trair as leis evolutivas”. 

Assim é em todos os passos do homem pelo orbe terrestre. 

O domínio da razão representa conquista recente do homem. Todavia, alcançá-lo exigiu evolução fisiológica do cérebro, subordinada às exigências do tempo.

As invenções e descobertas científicas devem muito ao conhecimento e às inovações tecnológicas. Entretanto, o atual progresso das técnicas obedeceu a lento processo.

Hoje a ciência defende a evolução das espécies. No entanto, não há dúvida de que referida evolução foi lenta e contínua.

Ocorre o mesmo com o indivíduo após o fenômeno ‘morte’, cujo período de adaptação à vida espiritual é lento e, para muitos, perturbado.

Denota-se, daí, que o fenômeno morte, isto é, a viagem para a pátria espiritual, não tem nada de sobrenatural. Como o nascimento, faz parte do processo evolutivo.

Como para nascer, o homem passa pelos períodos de gestação e da infância, ao desencarnar o indivíduo normalmente não toma consciência imediata e integral da realidade espiritual, salvo se preparado emocional e moralmente.

No livro ‘Obreiros da Vida Eterna’ o Instrutor Jerônimo esclarece:

“A transformação compulsória, pelo decesso, reintegrará a criatura no patrimônio de suas faculdades superiores. O trabalho, porém, não pode ser brusco, sob pena de ocasionar desastres emocionais de graves conseqüências. Urge considerar a necessidade da medida, isto é, da gradação”.

Do ponto de vista objetivo, natural que o plano espiritual guarde – mesmo que distante – parâmetros com o ambiente terreno, como modo de vida, forma de alimentação, sob pena de causar graves desastres emocionais ao recém-desencarnado.  E, subjetivamente, o processo de desencarne é relativo, e a racionalização acerca da nova realidade depende do seu amadurecimento espiritual.

Emmanuel ensina: “A morte física não é salto do desequilíbrio, é passo da evolução, simplesmente. À maneira do macaco, que encontra no ambiente humano uma vida animal enobrecida, o homem que, após a morte física, mereceu o ingresso nos círculos elevados do Invisível, encontra uma vida humana sublimada”. 

Assim, incoerente supor que a vida espiritual seja decifrada de forma idêntica e defender que cada colônia espiritual seja habitada por espíritos com experiências, aprendizado e maturidade diferentes. A realidade espiritual é a mesma, mas o interprete a percebe e nela é inserido conforme a evolução que lhe é própria.

O livro ‘Nosso Lar’[1] noticia que:

A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculosas, dizia. Todo processo evolutivo implica gradação. Há regiões múltiplas para os desencarnados, como existem planos inúmeros e surpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre. Almas e sentimentos, formas e coisas, obedecem a princípios de desenvolvimento natural e hierarquia justa”.

Por esta explicação se entende o motivo de existirem inúmeras colônias espirituais, cada qual em harmonia com a condição intelectual e moral de seus integrantes. Contudo, muitos cépticos qualificam de hilário esta teoria e, com ironia, comentam: Se não desfruta mais de corpo carnal, como pode o espírito sentir necessidade de se alimentar? Absurda esta história de que após a morte o desencarnado tenha necessidade de dormir!…

E assim vai…

Com todo respeito, esta teoria representa a realidade. Não se trata de embuste. Tudo é questão de evolução. Não que a dimensão espiritual seja uma quimera. Não!  Tanto é que a citação evangélica, datada de mais de dois mil anos, ilustra bem a realidade das ‘Colônias Espirituais’. A ‘parábola do mau rico’ traz embutida a elucidação de que existem diferentes dimensões espirituais, condizentes com a evolução espiritual dos desencarnados, cada qual com espíritos afins entre si, inviabilizando o acesso indiscriminado.

Do Evangelho de Lucas se aprende que os Espíritos de diferentes ordens nem sempre se acham misturados uns com os outros, fato este confirmado em ‘O livro dos Espíritos’, livro II, capítulo AS RELAÇÕES NO ALÉM-TÚMULO, precisamente na questão 278 e 279:

“Sim e não. Evitam-se ou se aproximam, conforme à simpatia ou à antipatia que reciprocamente uns inspiram aos outros, tal qual sucede entre vós. Constituem um mundo do qual o vosso é pálido reflexo. Os da mesma categoria se reúnem por uma espécie de afinidade e formam grupos ou famílias, unidos pelos laços da simpatia e pelos fins a que visam… Tal uma grande cidade onde os homens de todas as classes e de todas as condições se vêem e encontram, sem se confundirem; onde as sociedades se formam pela analogia dos gostos; onde a virtude e o vício se acotovelam, sem trocarem palavra”. “Os bons vão a toda parte e assim deve ser, para que possam influir sobre os maus. As regiões, porém, que os bons habitam estão interditadas aos Espíritos imperfeitos, a fim de que não as perturbem com suas paixões inferiores.” (Grifos nossos)

No livro ‘NOSSO LAR’[2], consta o seguinte ensinamento:

Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes, que não são suficientemente perversas para serem enviadas a colônias de reparação mais dolorosa, nem bastante nobres para serem conduzidas a planos de elevação. Representam fileiras de habitantes do Umbral, companheiros imediatos dos homens encarnados, separados deles apenas por leis vibratórias.”

Em outras palavras, se perverso, cruel, dolosamente voltado para o mal, habitará zonas abismais, local de muito sofrimento, de doloroso aprendizado; se desatento com os próprios deveres, tendo vivido de ilusões que representam resíduos mentais, este ‘material deteriorado’ será esgotado na região denominada Umbral; e, por fim, se voltado para o bem, atento aos deveres para com o bem comum, será abrigado em colônias espirituais ou mundos espirituais mais evoluídos, alguns distantes da Terra, inacessível a espíritos não afins.

O apóstolo Paulo de Tarso tinha noção desta realidade, fato este que corrobora a tese espírita acerca das colônias espirituais. Vale relembrar a assertiva de Paulo de Tarso[3]:

“Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo, não sei, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao terceiro céu”.

Em resumo, ‘cada céu’ representa uma dimensão compatível com a evolução do espírito.

Como conseqüência desta realidade, o Espiritismo ensina que o indivíduo deve treinar para a morte.

Como treinar para a morte?

Através de mudança de valores, pelo desapego dos interesses efêmeros. Veja bem: desapego e não desinteresse! O estado de perturbação será maior ou menor de acordo com o grau de apego, a forma de se focar os problemas terrenos, o grau de egoísmo e orgulho. Não só o orgulho e o egoísmo são ilusões, como todos os vícios que deles decorrem, como a avareza, o ciúme, a luxúria, a inveja, etc..

E para que?  

Para compatibilizar os atos aos costumes sociais de uma ‘colônia espiritual’ onde reine a paz, a sabedoria e o amor.

O ideal é que o treino inicie agora, porquanto o amanhã é incerto. E a melhor forma de se preparar para a viagem é o desapego à matéria, o cultivo das virtudes, a tolerância, a misericórdia, a vivência do amor incondicional.

Observa-se que o Espiritismo não criou a teoria do Umbral. Não! Não se trata de terrorismo espiritual.

É lei natural.

Esta idéia existe há muito tempo, em várias denominações filosóficas ou religiosas, sendo certo que na Bíblia consta[4]:

 “…separado num lugar com os hipócritas, onde haverá choro e ranger de dentes”.

Só que na visão espírita, o inferno e o Umbral não são regiões circunscritas e delimitadas, destinadas a sofrimentos eternos. Mesmo porque o inferno é fruto da mente humana. A partir do momento que sinceramente se arrepender e se dispor à devida reparação, o espírito obterá nova oportunidade para o aprendizado, rumo ao progresso.

Equivoca-se aquele que pensa que o cristão se sacrifica na Terra apenas para ser feliz no ‘reino dos céus’. Aquele que alimenta esta ilusão chegará frustrado na vida espiritual. A morte, por si só, não opera milagres. Por exemplo, o indivíduo depressivo, rebelde ou pessimista aqui na Terra não deixará de sê-lo apenas pelo óbito do corpo físico. Logicamente, passará por tratamento especializado no mundo espiritual.

Conclui-se que, além de investimento, ser gentil, educado, respeitoso, representa o caminho para a vitória integral. Até mesmo na Terra — onde geralmente há inversão de valores —, esta é uma postura inteligente, mesmo que eventualmente o indivíduo seja vítima da ingratidão, da inveja, da maldade calculada. Se assim é como encarnado, imagine o leitor a extensão dos benefícios que fruirá no plano espiritual aquele que assim procedeu durante a sua existência no orbe terrestre. Obviamente, entrará em ambiente afim ao que viveu como homem, ou seja, conviverá com almas educadas, gentis, respeitosas, leais, fiéis, disciplinadas, etc.. No entanto, suponha também o leitor o desespero ou a insegurança que se defrontará a pessoa que se habitou a negociatas, a fazer justiça com as próprias mãos, à rebeldia, à malícia, ao roubo, ao estupro, homicídio, etc.. Conviverá com companhias análogas. Deve ser um inferno não é mesmo?!

Repita-se: felicidade e infelicidade é construção diária, cujo ‘estado de espírito’ não surge abruptamente e nem é fruto do fenômeno morte. A felicidade é o objetivo do homem, e decorre da incondicionada consciência tranqüila. Não corresponde à ausência de dor ou de obstáculos na vida. Não! Este ‘estado de espírito’ é simbolicamente denominado por Jesus como ‘traje nupcial’, condição para entrar no ‘reino dos céus’, mencionada no Evangelho de Mateus[5] e usada por Emmanuel na seguinte frase: “É indispensável lavar o vaso do coração para receber a “água viva”, abandonar envoltórios inferiores, para vestir os “trajes nupciais” da luz eterna”[6].

A convicção do autor se encontra firmada. Mas e a sua? Será que vale apenas acreditar ou desacreditar? Num assunto de tamanho interesse, quem sabe uma investigação imparcial mais profunda, numa análise histórica, filosófica, sistemática, teleológica? E se for verdade esta tese de ‘Colônias Espirituais’? Será que estamos preparados para em alguma delas ser recebidos?


[1] Lucas, 16:26
[2] Lísias. In Nosso Lar. Capítulo 7: Explicações de Lísias. André Luiz. [Espírito]. Francisco Cândido Xavier. [Médium]. FEB: Brasília/DF, 2000. 45ª edição. P. 46.
[3] Ob. Cit., Cap. 12: ‘O Umbral’.
[4] 2 Coríntios 12:1-6.
[5] Mateus 24:51
[6] Mateus, 22:11.
[7] Emmanuel. Ob. Cit.. Prefácio.
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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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