“POBRES DE ESPÍRITO”

“Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”[1].

Uma estrela pousou na Terra para cumprir providencial missão: velar pelo desenvolvimento moral do homem.

Brilho inesquecível, tanto que a simples presença de Jesus fascinava.

Além do encanto de sua luz, sua sabedoria demonstrou, como exímio educador, revolucionária pedagogia a gravar no psiquismo do homem, sem nada escrever, seus atos e palavras. Frases curtas e, a princípio, absurdas, que, de imediato, causavam impacto, indignação. No entanto, após profunda reflexão, delas emergiam inolvidável lição. Com isso atraiu atenção ao explanar: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”; “daí a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”; “Bem aventurados os pobres de espírito”; “pois a quem tem, será dado ainda mais, e terá em abundância; mas a quem não tem será tirado até o que tem”.

            No Sermão da Montanha, o Messias apresentou uma série de princípios a elucidar a mente, confortar o coração e iluminar o caminho. Infelizmente, os homens não fizeram muita questão em aprofundá-los, dando primazia a questões secundárias, em detrimento da essência moral da Boa-Nova. No estudo destas premissas, a análise não passou da superfície, talvez pela vedação milenar do uso do raciocínio no contato com os textos evangélicos, sendo vilipendiados para controle social indecoroso.

Durante muito tempo o Cristianismo sobreviveu sem discussão. Entretanto, o Iluminismo, levantando a razão como autoridade, gerou uma comoção intelectual nunca vista, refletindo no mundo atual. Tanto é verdade que até hoje muitas afirmações de Jesus ainda não são aceitas por boa parte da nata intelectual.

Referindo-se a Nietzsche, Julián Marías[2] alerta para o fato de que:

“O ressentimento é um conceito muito importante em Nietzsche e ele acredita que o cristianismo é uma atitude ressentida: é a atitude do homem que é débil e acaba por aceitar a submissão, a debilidade ou a piedade; que aspira a uma espécie de aceitação dos fortes. (Grifei)

Antes de analisar a citação acima, cabe salientar o que Nietzsche disse: “O único cristão morreu na cruz”.

Em outras palavras: o Cristianismo puro, autêntico, foi vivenciado apenas por Jesus, e que o homem deturpou ou não captou o grande alcance de sua mensagem. Certamente, aí se entende a assertiva: “…o cristianismo é uma atitude ressentida”. Crítica        do filósofo ao cristianismo institucional ou como ideologia desfigurada.

Jesus, ao contrário, nunca fomentou a submissão, a debilidade, cujo entendimento é fruto, certamente, de tradução equivocada do seu pensamento. Numa interpretação sistemática, não é esta a lição contida no Sermão das bem-aventuranças.

Como traduzir, então, o pensamento do Enviado Celestial: “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”?

Em primeiro lugar, aqui se defende, como já dito, que Jesus não equiparou ‘pobres de espírito’ com os ignorantes, os desprovidos de inteligência, os débeis, os submissos.

No Sermão do Monte, Jesus se dirigiu a pessoas de todas as classes sociais e de várias regiões, divulgando a sua obra. Usou os paradigmas, as concepções, predominantes na época.

A premissa é: “…pobres de espírito”.

Para a platéia que ouvia o nazareno, quem era considerado os ‘ricos de espírito?’ Certamente, os que então direcionavam a vida intelectual e espiritual do povo. Naquela época, os doutores da lei, os fariseus, os filósofos, etc., eram considerados os “ricos de espírito”. Eles estudavam as questões do espírito.

Além do mais, desde o princípio socrático “Conhece-te a ti mesmo” à afirmação do cogito cartesiano, e, ainda hoje, muitos qualificam a filosofia — mãe de todas as ciências — como ‘ciência do espírito’.

Atualmente, a Universidade ostenta a responsabilidade de fomentar a pesquisa científica, promover a instrução e promover cursos profissionalizantes; os Filósofos, a de iluminar o uso da inteligência; os cientistas, o ministério de dissecar a natureza, a fim de conhecer intrinsecamente suas leis; os sacerdotes, de encaminhar o homem a Deus. Todos eram e são considerados “ricos de espírito”, com a missão de conduzir o povo no caminho do conhecimento e da iluminação espiritual.

Todavia, a maioria dos “ricos de espírito” ficavam, como ainda ficam, à espreita de Jesus para ver se Ele caía em alguma contradição. Eles se consideravam representantes da sabedoria e ninguém poderia ter nada mais de útil ou de válido para enriquecê-los.

            Então, considerando a realidade cultural da época, Jesus nazareno faz um inteligente trocadilho. “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Com isso, não quis dizer que o reino dos Céus é para os medíocres, os imbecis. Foi uma inversão de palavras, não de valores. Isto chocou os monopolizadores do conhecimento.

Como elucida o Evangelho[3]:

“Os homens de saber e de espírito, no entender do mundo, formam geralmente tão alto conceito de si próprios e da sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de lhes merecer a atenção. Concentrando sobre si mesmos os seus olhares, eles não os podem elevar até Deus. Essa tendência, de se acreditarem superiores a tudo, muito amiúde os leva a negar aquilo que, estando-lhes acima, os depreciaria, a negar até mesmo a Divindade”.

Logicamente, o Enviado Divino não defendeu a ignorância, nem tampouco a miséria, como caminhos para a felicidade prometida por Jesus.

Não é o pobre do ponto de vista intelectual; não é aquele que não reconhece o próprio valor. Sobretudo, “pobre de espírito” é aquele que conclui que é carente na esfera do espírito, como o Filósofo Sócrates defendeu: “Só sei que nada sei”. O verdadeiro sábio se considera baldo em conhecimento. Emmanuel[4] expressa bem: “Toda ciência do mundo, confrontada à sabedoria que nos espera, é menos que o ribeiro singelo ante o corpo ciclópico do oceano”.

            Hoje se percebe que Jesus procurou levar o Evangelho de forma bem diferente das conhecidas aqui na Terra. Para conquistar simpatia e disseminar suas idéias, não defendeu teses em Universidade, não foi à procura dos poderosos ou da elite intelectual para convencê-los, como Herodes, Caifás, Pilatos. Sempre usou da simplicidade para tornar acessível o conhecimento. A mensagem falaria por si mesma. Contudo, a simplicidade nem sempre chamou a atenção dos intelectuais. “Os ricos de espíritos”, os que se consideram detentores da verdade, monopolizadores do saber — mesmo que não assumam publicamente esta postura —, gostam, não raro, de complicar. O conhecimento quase sempre foi usado como forma de manipulação. A ditadura do intelecto.

            Ainda hoje, a maioria dos intelectuais é arrogante. Na época de Jesus, não era diferente. Como o Nazareno não se dirigiu a eles para obter aval; como levou a lição de forma simples, inteligível a todo e qualquer indivíduo, sem o apoio da elite intelectual da época, esta sim é que ficou ressentida.

Só que, esta advertência não se dirige apenas aos intelectuais catalogados pela Filosofia e Ciência Oficial. Sobretudo, a todo aquele que se encarcera no preconceito, na arrogância, irredutível em suas convicções, fechando-se a novos conhecimentos.

Como existem pessoas assim também no meio religioso!

Em segundo lugar, o que se deve entender por ‘reino dos céus’?

Não representa tão somente a ‘feliz dimensão na esfera espiritual’, a que o homem de bem entrará.

No Evangelho se nota o seguinte preceito: “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” [5].

Quem cumpre o dever, tornando-se útil, procurando se conhecer e enfrentar com dignidade os obstáculos da vida, encontrará a paz de espírito e entenderá o terceiro significado do termo ‘reino dos céus’, a seguir exposto.

O Nazareno, certa vez, pronunciou também a seguinte frase: “Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente a vós é chegado o reino de Deus” [6]. Com estas palavras, deixou claro que a tarefa do homem é concretizar a vontade de Deus aqui na Terra. Se o Universo é criação divina, logicamente a Terra não é um pálido ponto azul abandonado na imensidão. A tarefa primordial é transformar o planeta num local onde a paz prevaleça.

Sendo assim, a mensagem do Messias não estimula a alienação. Ao contrário, é mola propulsora para a cidadania. Leva à necessidade do cidadão, por seus atos, construir um mundo melhor aqui na Terra, efetivando a vontade de Deus, pela vivência da lei de justiça, amor e caridade.

Em suma: o Messias elucidou que o ‘reino dos céus’ deve ser considerado, além da feliz dimensão espiritual que aguarda o homem de bem, como um ‘estado de espírito’ (paz de consciência) e, como um símbolo de atitude, de transformação.  

Desta forma, ‘reino dos céus’ não denota a promessa para o futuro, que favoreça a alienação quanto aos interesses imediatos da Terra. É, também, aqui e agora, um chamamento à responsabilidade, e um convite à ‘paz de espírito’.

             …..

            Por conseguinte, “pobre de espírito” é aquele que reconhece a própria limitação, sempre aberto ao aprendizado e a se enriquecer com sabedoria. Não pensa apenas no futuro. Foca, também, a atenção no presente, procurando transformar a Terra num mundo melhor.

Jesus abalou a arcaica estrutura intelectual dos habitantes da Terra para inaugurar uma nova mentalidade. Alguém já imaginou se deparar com um catedrático, um doutor ou um simples professor, ajoelhar-se aos pés do aluno, de um ínfimo servidor da Universidade ou de uma escola primária, e lavar os pés de cada um deles?

O Mestre dos mestres fez isso.

E há quem diga que Ele era louco.

Com todo o respeito, alienado é aquele que se apega no transitório, como a arrogância, o orgulho, a discriminação, o preconceito, enfim ao que está ultrapassado.

A humildade é o caminho para a iluminação, favorecendo a democratização do conhecimento. Independente da qualificação que receba, aquele que se coloca à disposição para escutar a opinião alheia, rever conceitos, admitir equívocos, este sim é ‘milionário de espírito’.

Como sintetiza Victor Hugo. “O espírito enriquece-se com o que recebe; o coração com o que dá”.

 

[1] MATEUS, V:3
[2] http://www.hottopos.com/mp2/nietzsche_pt.htm. Acessado no dia 22 de fevereiro de 2010.
[3] Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo VII, item 2.
[4] Emmanuel. [Espírito] In Refúgio. Humildade de coração. Francisco Cândido Xavier [Psicografia de]. São Paulo: Instituto Divulgação Editora André Luiz, 1989. P. 36.
[5] Lucas 17:20-21
[6] Lucas, 11: 20 (Mas, se eu expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente a vós é chegado o reino de Deus).
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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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