VAMPIRO

“O cadáver é carne sem vida, enquanto que um morto é alguém que se ausenta da vida.. “[1].

     É natural o medo da maldade alheia; contudo, não é razoável entrar em pânico aquele que tem fé em Deus. Compreensível o temor da morte; no entanto, não se justifica o pavor quando se está convencido acerca da imortalidade da alma. Não é confortável receber a visita de ‘fantasmas’; mas incoerente a inquietação do céptico, de quem não acredita em vida após a morte.

     Agora, mesmo que se duvide da existência de vampiro, é bom não deixar o pescoço desprotegido. Eles existem, e a sua natureza é sugar as energias dos incautos. E não adianta crucifixo, alho, estaca. Não! Ele seduz para alcançar o seu objetivo. Seja no crepúsculo, numa noite de lua nova ou amanhecer, até mesmo num eventual eclipse e diante de inimaginável sol da meia-noite, o vampiro tem o dom de seduzir. Porém, vampiro vegetariano e ético, só em filme mesmo.

      Ele existe, só que ninguém o vê. Atua, mas ninguém o aponta. Articula o crime, sem executá-lo. O vampiro usa o que seduz o indivíduo, jamais o que favorece. A sua forma de agir depende do vampirizado. Forja informação de sábios, de ignóbeis, induz a erro os imbecis. Não tem princípios. Ora, prega o cepticismo, ora defende Deus, fica em cima do muro, mas não admite o despertar da vítima.

      Em todas as situações, tira proveito da indiferença ou do desespero do homem.

      A fé é, indubitavelmente, alicerce indispensável ao bem-estar de qualquer ser humano. Sem esperança, não há sonhos, não há vida. Então, a fim de ludibriar, investiu no materialismo, na dúvida, na perspectiva ateísta, atuando de forma sorrateira.

      No auge do cepticismo ele estava lá, quando o iluminismo elegeu a razão e a experiência como métodos acessíveis à verdade, menosprezando a fé e a revelação. Como consequência, parece que a ciência e a filosofia não convivem bem com o conhecimento religioso. Pensadores como Thomas Hobbes, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Charles Darwin, Richard Dawkins, mexeram com a estrutura do edifício religioso, num aumento do número de cépticos pelo mundo.

      Daí, muitos intelectuais apontam o cérebro como a sede do pensamento; muito se investe para descobrir a mecânica casual/causal do Universo; divulga-se que a religião é fruto da fantasia; e que os prodígios da fé encontram explicação no poder ainda desconhecido da mente humana. O homem passou a ser o centro do Universo, relegando Deus ao esquecimento.

         Como defendido acima, não há nada mais que inquiete o homem do que a falta de fé, a dúvida sobre a sua origem, o receio da morte. Desta inquietação, esta entidade lendária aparece tirando proveito com o desequilíbrio do homem. Ele existe, mas onde está? Este poder secreto sabe que, salvo raras exceções, a pessoa sem fé em Deus escolhe, dependendo de sua condição financeira, a fuga que melhor lhe convém, seja pelo consumismo, pelo uso imoderado de bebidas alcoólicas, pela dependência química, etc.. Destas fugas, o vampiro aufere lucros e mais lucros…

      Pode-se concluir, então, que a religião é garantia de bem-estar?

      Não! Porquanto a história fornece indícios da atuação oculta deste sanguessuga nas instituições religiosas.

      A fé é uma das palavras mais citadas; mas a história demonstra que nem sempre despertou o homem ou contribuiu para a postura ética. Muitas vezes, favoreceu a atuação vil de tiranos. É o vampiro camuflado, para que o homem não acorde. Basta assinalar o aumento do número de religiões pelo mundo. No Brasil, após a Constituição Federal de 1988, este número cresceu vertiginosamente. Será por quê? Será que Deus abriu as portas do Céu, permitindo que ‘o Espírito Santo’, os anjos, os ‘Espíritos do bem’ descessem a Terra, num mutirão sem precedente? Para uns, trata-se da liberdade de crença alçada a princípio constitucional; para outros, isto se deu pela Imunidade Tributária, vez que é ‘excelente negócio’, receber dízimo sem pagar tributo sobre o valor arrecadado. E continua se beneficiando de lucros e mais lucros…

      A verdade é que este ‘poder difuso’ investe na Ciência que carimba o cepticismo ou nas organizações religiosas que estimula a fé cega, a crença que aliena. E o vampiro continua se beneficiando de lucros e mais lucros…

      Sabendo disso, o vampiro age ardilosamente para tirar proveito, contando com a volúpia de alguns e boa-fé de outros. Sabe agir. O parasita tira proveito da languidez do parasitado.

       Como destruir o vampiro?

      Vale lembrar que todo o seu trabalho é no sentido de manter a vítima inconsciente do seu real interesse e a sua forma de ação é incitar a dependência. O seu antídoto: a autonomia.

      Por conta deste fato, a religião e o materialismo (cepticismo) têm sido meio de alienação, tanto que Karl Marx disse: “A religião é o ópio do povo.” E, na questão 799 de O Livro dos Espíritos, respondendo à pergunta como o Espiritismo poderá ajudar no progresso, os espíritos elucidam: “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade”.  

      Qual o resultado do materialismo e da ‘fé que aliena’, da ‘fé cega’?

      No século XXI, mesmo com o desenvolvimento da ciência e o incremento da tecnologia, a angústia acompanha o homem, sem respostas para questões cruciais. Faz-se mapeamento do cérebro, mas pouco se conhece sobre a mente e o mundo emocional. Inúmeras marcas de analgésicos e de psicotrópicos propiciam alívio, sem amenizar as dores da alma. Apesar do imenso número de religiões, a injustiça social permanece e recrudesce.

      Não é coincidência, mas estas fugas levam à alienação, inviabilizam a arte de refletir, de cobrar. Como diz o poeta[2]: “Eh, ôô, vida de gado. Povo marcado, ê Povo feliz”. Assim é que prolifera o número de Shopping Center, de barzinhos, de boates, encontra-se ramificado o tráfico de drogas e a cada esquina tem um ‘templo de oração’.

      O vampiro continua a auferir lucro e mais lucro…

      Pergunta-se, então, Deus existe?

      Responder esta questão é um desafio para cada um. Que cada um chegue à sua conclusão. Que o faça com sabedoria! O trabalho do homem em procurar, por si mesmo, as respostas. Àquele que admite a existência de Deus, a Doutrina Espírita apresenta a fé raciocinada, a que conscientiza.

      O que falta não é a fé, mas a fé raciocinada.

      Urge, no entanto, considerar com imparcialidade que — e o leitor há de concordar com a seguinte premissa: o alicerce do cepticismo é insólito e absurdo. O acaso cria algo? A harmonia do Universo é fruto deste acidente?

      Que cada um tire as próprias conclusões após trabalho árduo. Não acredite em tudo o que a Ciência diz, nem em tudo o que os religiosos pregam. Os pronunciamentos da Ciência Oficial têm valor relativo. Como diz Augusto Jorge Cury[3]: “As idéias vigentes devem ser valorizadas, mas também filtradas e revisadas. As idéias, mesmo as que são consideradas verdades científicas, não são fins em si mesmas, pois não são coincidentes com a verdade essencial, que é inatingível”.

      A especulação não é guia absolutamente seguro, mas o seu abandono é deveras prejudicial.

      O médico psiquiatra Augusto Cury[4] alerta para o fato de que: “A maioria dos ateus realmente não acreditava em Deus? Não. Seu ateísmo era resultado da indignação contra as injustiças, incoerências e discriminações sociopolíticas cometidas pela religiosidade reinante em determinada época”.

      Destas injustiças, quanto se lucra?!

      Talvez, por isso, a mídia, fomentada por este ‘poder oculto’, confere mais realce às idéias de cientistas cépticos. Por que não propaga as teses de cientistas, filósofos, pensadores convictos da existência de Deus e da Imortalidade da alma? Pensadores que chegaram à convicção após muita especulação, reflexão e observação. Ou seja, após muito trabalho.

      Por exemplo, Sócrates é um dos filósofos mais citados nas escolas. Todavia, o estudo fica restrito ao método socrático. Pouco se fala sobre a crença na imortalidade da alma e da tese: “conhece-te a ti mesmo”. Isso geralmente não se ensina na escola. Sobre William Crookes, realça-se a sua contribuição na Química e na Física. Contudo, raro se comenta sobre os seus estudos na área espiritualista. Por que não divulgar a seguinte afirmação de Crookes: “É absolutamente verdadeiro que uma conexão foi estabelecida entre este mundo e o outro”. E Cesare Lombroso? A sua colaboração foi enorme na área da criminologia. No entanto, qual a razão de não mencionar a sua conversão ao espiritualismo, após incessantes críticas a pesquisas nesta área? Por que motivo não tornar público a seguinte frase: “Estou muito envergonhado e desgostoso por haver combatido com tanta persistência a possibilidade dos fatos chamados espiríticos; mas os fatos existem e eu deles me orgulho de ser escravo” . Quanto a Albert Einstein, divulga-se amiúde a teoria da relatividade, pouco sobre a premissa: “A Religião sem a ciência é cega, mas a ciência sem religião é coxa.” E poderíamos acrescentar o trabalho de Gabriel Delanne, Camille Flamarion, Louis Pasteur, Alexandre Aksakof, Yan Stevenson, Fritjof Capra, Brian Weiss, Amit Goswami, etc..

      Enfim, nota-se que a ‘miopia humana’ ainda é obstáculo para percepção maior do Universo e de suas Leis. Esta deficiência leva o indivíduo ao vampirismo.

      Para finalizar, o leitor pode perguntar: Qual o objetivo deste artigo? Se o vampiro é invisível e age sem ser notado, como se proteger dele?

      O fim não é materializá-lo ante os olhos do mundo, nem defini-lo. Não! É apontar para a sua forma de ação, sobre o processo de sedução que envolve o homem, para que este possa se defender.

      A sua forma de agir é sedutora, porque normalmente a vítima gosta de transferir responsabilidade, tem o hábito de não cuidar dos próprios interesses, de acreditar em ilusões, em salvadores da pátria, de abraçar o cepticismo para usufruir dos prazeres da carne ou para fugir dos deveres e, sobretudo, de se sentir injustiçado.

      Por conta deste conúbio, o vampiro tira proveito, atiçando a indiferença espiritual do homem ou adulando o espírito preguiçoso.

      Vampiro é toda pessoa ou grupo de pessoas que tira indevida utilidade do esforço alheio ou de determinada atividade institucional, exercendo pressão, ostensiva ou velada, nas decisões do vampirizado, seja pessoa, associação ou serviço público, em favor de exclusivos interesses pessoais, em detrimento do bem comum. Investe na ignorância alheia; abusa da boa-fé das pessoas e de eventuais direitos; manipula a vontade alheia, a opinião pública ou teses doutrinárias. Favorece negociatas. Alguns alimentam o hábito da reclamação, sempre se mostrando revoltado, à cata de auferir indevido proveito do esforço alheio. Todos não contribuem para a harmonia do Universo, para o bem-estar social.

      Com isso vampiriza e deixa-se vampirizar. E o homem se transforma num verdadeiro sonâmbulo. Um morto-vivo. Sacia a fome do corpo, sem acordar para o alimento da alma. É vítima do egoísmo, do orgulho, das paixões da carne. Não recicla as idéias; não é flexível.

      Feliz é aquele que reconhece a misericórdia divina, na condição de usufrutuário dos recursos naturais. Como tal, obedece aos deveres emanados da consciência individual e Universal. Como diz Emmanuel[5]: “A felicidade tem base no dever cumprido”. Próspero é o homem que conquista a autonomia, sabendo usar os recursos naturais, divinos, fugindo da própria incúria e da imprevidência. Ou seja, que não se ausenta da vida, permanecendo preso a um mausoléu de ouro, à escuridão, aos prazeres rasteiros da carne.

      É hora de despertar para a vida verdadeira. Entre o prazer momentâneo da carne, por que não optar pelos encantos da alma? Que o homem acorde para a vida, para a beleza do amor. E a melhor forma de despertar é fazer o bem e agradecer pela proteção divina!

      O entorpecimento representa morte. Daí o preceito do filósofo de Nazaré “Deixai aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos”. Ou como ensina Emmanuel[6]: “Estime a simplicidade. O luxo é o mausoléu dos que se avizinham da morte”.

 

[1] Emmanuel. In FONTE VIVA. Lição 143 – ACORDA E AJUDA. Emmanuel [Espírito].Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
[2] Composição e letra de Zé Ramalho. Música: Vida de gado.
[3] Cury, AUGUSTO JORGE. In INTELIGÊNCIA MULTIFOCAL. Análise da construção dos pensamentos e da formação de pensadores. São Paulo: Editora Cultrix, 1998. 3ª ed., p. 38.
[4] Cury, AUGUSTO JORGE. IN ANÁLISE DA INTELIGÊNCIA DE CRISTO: O MESTRE DOS MESTRES. — São Paulo: Academia de Inteligência, 1999. 232
[5] Emmanuel. In PALAVRAS DE EMMANUEL – Francisco Cândido Xavier – ditado pelo espírito Emmanuel – 7ª edição.
[6] André Luiz. Tranqüilidade. André Luiz [Espírito]. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.
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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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