DIALÉTICA ESPÍRITA

 
 
 “…posso não concordar com uma única palavra do que dizes, mas lutarei até a morte para que tenhas o direito de dizê-las!”    Voltaire 
 

Dialética, na Grécia Antiga, representava a arte do diálogo, a “arte de esclarecer”. Meio de se chegar a novas idéias pelo diálogo racional. “Pela decomposição e investigação racional de um conceito, chega-se a uma síntese, que também deve ser examinada, num processo infinito em busca da verdade”.[1] 

Sem aprofundar, é método de raciocínio em que as idéias se encadeiam em etapas — tese e antítese —, e nesta contraposição se forma um novo conceito diferente das duas primeiras: a síntese. 

Pela história, o processo dialético, isto é, o conhecimento obtido pelo conflito de teses ou de forças contrárias, foi aplicado à cognição racional subjetiva e ontológica (natureza do ser), bem como nas revoluções históricas (luta de classes), onde neste o homem é produto da história. 

Dentre filósofos envolvidos nesta arte filosófica, destaca-se Zenão, Sócrates, Heráclito, Hegel, Marx. 

Há quem não admita a designação Dialética Espírita, pela instabilidade conceptual em face da estrutura finalista do Universo, organizado e magnificamente harmônico. Ou seja, este processo não representa fielmente a realidade. Apenas arte sem alcançar natureza real do ser (ontológico). 

No entanto, o homem é perfectível e sua visão se aprimora no tempo, também no campo ontológico. A Lei Natural é eterna, mas a compreensão ou definição é progressiva, mesmo porque a verdade surgirá à medida que o indivíduo estiver preparado para recebê-la. 

É, sem dúvida, um processo dialético. A verdade será conquistada, nunca auferida gratuitamente. 

Tanto é verdade que o homem sempre sentiu a necessidade de entender o mundo. E nessa tentativa, angariou conhecimentos e organizou critérios na busca de diferenciá-los. Nesse ínterim, classificou-se o saber em mitológico, popular, filosófico, científico e religioso, cada qual descrevendo a natureza de forma própria.  

Em tese, o conhecer filosófico se destina à abordagem crítica e racional. Filosofar é assumir as rédeas do aprendizado, é livremente analisar e emitir juízo valorativo. É não se prender a preconceitos ou controle de qualquer espécie. Kant afirmou: “não se aprende a filosofia, nem se ensina; o que se aprende e se pode ensinar é a filosofar”. 

Historicamente, a filosofia representa o início do conhecimento organizado. Ao contrário do saber popular e/ou mitológico, é racional e lógico. Objetiva a compreensão global, ao passo que a Ciência visa à essência objetiva de um fenômeno. O saber científico é verificado. Não aspira ser absoluto ou eterno. O religioso ou teológico é revelado e, assim, transcendental. Pela origem transcendente, considera-se infalível. 

Dogma religioso geralmente leva à fé cega. 

Na Idade Média, a Filosofia se submeteu à Teologia. Como disse Santo Agostinho[2]: “…aquilo que a verdade descobrir não pode contrariar aos livros sagrados, quer do Antigo quer do Novo Testamento”. Em tese, no entanto, o filósofo não se submete às influências exteriores, sendo livre na arte de pensar. 

É bom que se diga que a Filosofia não se distingue da religião por descartar a salvação humana. Apesar de crítica, nem sempre é atéia. Apenas, no dizer de Luc Ferry[3]: “…ao instigar o homem a se voltar contra as crenças para fazer uso da razão, do espírito crítico, ela o arrasta insensivelmente para o terreno da dúvida…”. (Grifado pelo autor) 

O que caracteriza o Espiritismo como filosofia? 

Apesar de muitos refutarem este dado, o Espiritismo fomenta a análise crítica. Com base na contemplação e na reflexão, tem a razão como ferramenta a estruturar o pensamento. O espírita é ativo na arte de pensar, liberto de todas as coerções e de toda fé cega numa ou noutra revelação. 

Em sentido estrito, a doutrina lida, de forma capaz e segura, com desafiadores temas filosóficos, como idéias inatas, fatalismo, preceitos éticos. Quando se refere às normas sociais, situa-se no campo da ética; caso paute pela validade dos argumentos, insere-se no campo da lógica; ao tratar dos princípios primeiros do mundo, firma-se como metafísica; e nas questões do belo, brilha no campo da estética

Como a Filosofia, o Espiritismo se baseia em princípios, jamais em “dogmas”. Muito embora em algum momento utilize o termo “dogma”, o faz como elucida J. Herculano Pires[4]

“O dogma religioso é de fé que não pode ser contraditado, pois provém da Revelação de Deus. O dogma filosófico é racional, dogma de razão, ou seja, princípio de uma doutrina racionalmente estruturada.” (Realce do autor). 

Assim, princípio espírita não corresponde ao indiscutível preceito religioso. O dogma religioso é que abomina o processo dialético, porquanto, por esta ótica, a ‘verdade’ se encontra revelada e, como tal, é indiscutível. 

O espírita convive com a reflexão pela fé-racional. “Os espíritos desencarnados não são deidades”, como evidencia Luiz Signates[5]

Não equivale dizer que o Espiritismo rejeita tudo o que é inexplicável. Não. A humildade é virtude eficaz no trabalho especulativo. Todavia, fé-racional é aquela que não admite qualquer teoria ou hipótese descartada taxativamente pela ciência, pela razão e, quiçá, pela tecnologia, como, por exemplo, a crença na teoria se de que o Sol é que gira em torno da Terra ou a adoção irrestrita da tese criacionista da Bíblia, a conter a descrição literal de como o mundo foi criado. Como consta no Evangelho Segundo o Espiritismo[6]

 “A Religião, não mais negada pela Ciência, adquirirá uma força indestrutível, por colocar-se de acordo com a razão, não mais se opondo à lógica irresistível dos fatos”. 

Aliás, urge alertar sobre a inconveniente postura de divinizar os livros espíritas como obras completas e intocáveis, a exemplo da Bíblia e o Alcorão. Quanta exclusão pelo apego literal às mensagens dos espíritos? A exclusiva interpretação literal irrompe um muro ao diálogo e ao raciocínio. 

Comentando a afirmativa de Allan Kardec de que “O Espiritismo não é obra nem de um único Espírito, nem de um só homem, é obra dos Espíritos em geral[7]”, Luiz Signates[8] alerta para o fato de que: 

“Sem uma constante atualização de nossa mentalidade ou se nos mantivermos estagnados em algum tipo de dogmatismo, os sábios do mundo espiritual não terão como manter conosco diálogos tão proveitosos quanto os que instauraram com Allan Kardec”. (Destaque do autor) 

O Evangelho é um código de ética, por levar o homem a refletir sobre o caminho cristão. No Evangelho Espírita[9], ressalta-se que: “O dever é o resumo prático de todas as especulações morais; é uma bravura da alma que enfrenta as angústias da luta”. 

O espírita deve examinar e refletir sobre os princípios morais. Ser ético, sempre sobrepujando o interesse coletivo em face do privado. 

Nunca a obediência cega, fruto do moralismo hipócrita. 

O espírita deve se mostrar susceptível ao convencimento. Incabível alienar o direito à liberdade de pensar e de acatar sugestões. Inaceitável sofrer imposição desta ou daquela instituição, deste ou daquele dirigente. Por outro lado, deve respeitar o enfoque alheio e viver a mensagem conforme à lei do amor. 

Como Eusébio[10], por que não rogar; 

“Senhor da vida, dilata-nos a percepção diante da vida, abre-nos os olhos enevoados pelo sono da ilusão”. (Destaque do autor) 

Talvez a dificuldade em encarar a dialética espírita ou seu caráter filosófico se fundamente na falta de empatia ou na dificuldade em dialogar, levando alguns a comungar o dogmatismo religioso para impor ‘suas verdades’

Como o homem não vive fora da sociedade, não conseguirá o aprimoramento longe do diálogo, do confronto de idéias. A verdade decorre não só do estudo, mas principalmente da troca de experiências. 

                O fato de se admitir a dialética, não corresponde à discordância indiscriminada e negligente dos postulados espíritas. Apesar de Kardec ter destacado o caráter progressivo, há que se ter bastante cuidado em apreciá-la e, eventualmente, refutar alguma tese. Quanto mais o espírita se instruir nas bases do amor, mais comprovará a profundidade da Codificação. 

Carlos Bernardo Loureiro[11] acentua que: 

“…de conformidade com a dialética espírita, que todas as coisas e seres estão em constante transformação, que não ocupam um determinado e prefixado lugar, que marcham para estados melhores, estados que conquistarão no tempo e no espaço”. (Realce do autor) 

Quantos não continuam vivendo na Idade Média por conta da visão dogmática, em detrimento do caráter filosófico da Doutrina, que Kardec tanto defendeu? 

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Dial%C3%A9tica. Acessado dia 25.09.2007
[2] Aranha, M.L., Martins, M.H. (1993). In Filosofando: introdução à filosof ia. São Paulo: Moderna.
[3] Ferry, Luc. In Aprender a viver. Tradução Vera Lucia dos Reis. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
[4] Herculano Pires. In “Agonia das Religiões”.
[5] In www.espiritualidades.com.br/Artigos_S_Z/Signates_Luiz_conceito_comunic.htm
[6] Não vim destruir a lei. Item 8. Ob. Cit.
[7] Allan Kardec (Revista Espírita, 1865, p. 296)
[8] Luiz Signates, in http://www.espiritualidades.com.br/Artigos_S_Z/Signates_Luiz_conceito_comunic.htm. Acessado no dia 17 de setembro de 2007.
[9] Capítulo XVII, item 7, O dever.
[10] Preleção de Eusébio. In No mundo maior. André Luiz (Espírito). Psicografia de Francisco C. Xavier)
[11] http://www.telma.org.br/publicacoes.html. Acessado dia 28.09.2007

 

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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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