CONSIDERAÇÕES INICIAIS

      

        Desde cedo, entrei em contato com a Doutrina Espírita. Vários fatores contribuíram para me familiarizar com esta visão filosófica.

        Sou natural de Uberaba, Estado de Minas Gerais, cidade em que Francisco Cândido Xavier residiu grande parte de sua vida, próxima também à terra natal do renomado espírita Eurípedes Barsanulfo, de Sacramento.

        Desde cedo, minha mãe me encaminhou às reuniões evangélicas, nas várias Instituições Espíritas Uberabenses. Quando criança, a visita às reuniões era obrigatória. Até que o desencarne de minha irmã Sheila provocou verdadeira angústia íntima. Este fato ocorreu quando contava com apenas quatorze anos.

        Daí, as perguntas começaram…                             

        Onde estaria aquela ‘alma’ que conviveu comigo até então? A morte aniquilou com ela? Tudo acabou? Ou será que a ‘minha irmã’ mudou apenas de domicílio, indo habitar outra dimensão?

        Até aquela data o Espiritismo era uma Doutrina interessante, instigante e lógica. Foi nesse período que me interessei intimamente pela Doutrina.

        Descobri o seu caráter consolador.

        Comecei estudando o livro O QUE É O ESPIRITISMO, que se me familiarizou por ALLAN KARDEC decifrar os problemas existenciais de forma simples, coerente, sábia e profunda.

        E, assim, o estudo doutrinário me acompanhou o dia-a-dia.

        Quando adolescente, fui criticado pela leitura e estudo de temas ‘fantasmagóricos’ e fúnebres, impróprios para aquela idade.

        Assim, desde 1979 até hoje, venho lendo e estudando as obras espíritas. Participei de várias Instituições Espíritas. No início, muito entusiasmo e imaturidade acompanhavam-me em eventos e estudos.

        Como aprendiz, preparei para verdadeira vida missionária hábil à transformação do mundo. Era natural que assim fosse. Ora, testemunhei, inúmeras vezes, reuniões em que Chico Xavier era intermediário de mensagens consoladoras e envolventes, beneficiando diretamente inúmeras famílias; os médiuns em outras ‘Casas Espíritas’ assumiam ‘ar de profetas’, de ‘missionários’ e de ‘visionários’. Lembro-me perfeitamente de uma reunião de passes, corriqueira se não contasse com a minha iniciação na condição de ‘médium curador’.

        A primeira palestra e a iniciação mediúnica se tornariam inesquecível.

        E assim permaneceu até que o entusiasmo esfriou…

        Como a Doutrina Espírita nos concita à reflexão, as perguntas levaram-me a um período denominado de ‘vazio existencial’. A prática me levou a diferençar os Espíritas do Espiritismo.

        Conclui que, nós, os Espíritas, não éramos dignos da distinta doutrina codificada por Allan Kardec. Percebi que nem sempre vivemos o Cristianismo redivivo, usando-o para fins menos dignos. Representamos o ‘papel’ de Espíritas, descomprometidos com o Caráter Filosófico e Científico que a diferencia. Vinculamos falsamente ao aspecto Religioso, longe da real visão do Codificador. Detectei o intuito de transformar o Espiritismo em mais uma religião, envolvida nos objetivos rasteiros do homem: religião formal, desvinculada dos interesses reais da Criatura Humana. O realce da cura do corpo; o fomento do assistencialismo; as ‘sessões mediúnicas e de adivinhação’.

        Com isso, notei que, muitas vezes, somos cristãos despreparados para o diálogo; arrogantes, com discurso moralista; negligentes, com resposta imediata para todas as questões, sem aprofundar e disciplinar o estudo, mesmo diante de várias e percucientes obras. Decifrando meu equivocado ‘estado de espírito’ à época, MARK W. BAKER[1] resumiu bem com a frase: “Convivo com esses profissionais e acho que eles não conhecem nenhum terapeuta que seja ao mesmo tempo inteligente e cristão.”

        Certamente que me enriqueci intelectualmente. Milionário de explicações racionais. No entanto, pobre no sentimento. A qualquer adversidade, a reação agressiva emocional era resposta imediata, digna de uma focinheira. Aprendi a fazer ilações filosóficas para a prosperidade intelectual, continuando miserável, sem desfrutar de bem-estar íntimo.

        Continuava escravo emocional. Com inúmeras respostas, mas sem a felicidade tão almejada.

        Natural este estado de ânimo num espírito neófito, como eu, em assuntos espirituais. Certamente, esta insatisfação me levou a escrever este livro, porquanto muitos convivem com imaturidade similar, com análoga aflição íntima.

        Felizmente, não parei de estudar. As obras codificadas por Allan Kardec me conscientizaram de que o estudo sério é hábil para o convencimento íntimo, e dele retiramos provas inequívocas da sobrevivência da alma. Só que o problema não era de convencimento, mas de satisfação pessoal íntima no ‘movimento espírita’.

        O estudo é eficaz, muito mais do que os fenômenos das reuniões mediúnicas. Se não fosse o estudo prévio, algumas reuniões ‘intituladas de mediúnicas’ teriam me afastado do movimento espírita. Encontros públicos sem o mínimo respeito à privacidade dos Espíritos, onde expõem suas dores e angústias. Sem prévia seleção e estudo sistemático, o sincretismo e a mentira proliferam, e o desrespeito também. Esquecemos da advertência de Kardec de que uma sessão mediúnica é comparada a verdadeiro laboratório, onde se manipulam elementos químicos a exigir prévio conhecimento da ciência que opera, sob pena de verdadeiros desastres.

        O estudo sério me levou a rever a Codificação Espírita e as obras subsidiárias para peneirar convicções íntimas e angariar recursos necessários não só à prosperidade intelectual, como, sobretudo, ao equilíbrio psíquico e espiritual.

        Neste empreendimento sofri até que encontrei a Psicologia Espírita, profunda e hábil para a libertação íntima. Acostumado a me vincular aos ‘salvadores dogmas espíritas’, encontrei dificuldade em tirar a viseira a moldar previamente o pensamento. Foi difícil arrancá-la e fugir do determinismo horripilante, abraçado indevidamente pela interpretação equivocada que fizera do Consolador Prometido.

        O processo de libertação adveio nas reflexões que empreendi em torno do ensinamento evangélico de que a gênese da maior parte do sofrimento humano se encontra na presente vida, gerada por nós mesmos na presente encarnação. Aliás, este ensinamento está contido no Evangelho Segundo o Espiritismo[2]. Isto para mim era óbvio intelectualmente. Apenas intelectualmente, repito.

        Ora, na intimidade alimentava a ‘convicção’ ou a ‘crença’ de que a causa da aflição residia em vidas passadas, e que o homem está aqui para purgar os erros do passado. Ou seja, a ‘lei de causa e efeito’.

        Este conflito me levou à descoberta mais importante da minha vida: o caminho para o progresso espiritual não se circunscreve ao processo intelectual. Além dele, não podemos descurar das convicções ou crenças emotivas — conscientes ou inconscientes — a gerir a vida humana. E mais: ‘motivações ocultas’ direcionam a conduta humana, muito mais que o conhecimento intelectual. A crença ou convicção emocional é muito mais importante que o conhecimento intelectual. Enquanto o homem não toma consciência desta realidade, a conquista intelectiva é, muitas vezes, manipulada por crenças íntimas, nem sempre conscientes.

        Assim, no caso mencionado, mesmo sabendo que a origem da maioria esmagadora das aflições se encontra na vida presente, no despreparo pessoal, no modo de viver e de encarar os desafios, ficou evidente que era mais cômodo alimentar a crença de que a causa residia nas reencarnações anteriores.

        Íntima fuga psicológica, porquanto a consciência sobre o valor os atos presente tende a nos levar à responsabilidade pessoal, ou seja, a retomar as rédeas da vida.

        Só que a fuga é: …depositar a culpa nos governantes; imputar ao determinismo irretorquível o gênero de vida presente; defender a fatalidade do momento da morte, mesmo ciente de que inúmeros óbitos são frutos da negligência de pais ou educadores; é crer que a Instituição Espírita desfruta de pequeno número de participantes pelo desinteresse espiritual reinante na sociedade, esquecendo que talvez seja obra da falta de criatividade ou despreparo daqueles que dirigem, etc..

        Não assumir o atual é focar a atenção no passado, descuidando-se do presente.

         Com esta percepção, o foco no outro deixou de existir. Evaporou o ‘espírito missionário’. No lugar, surgiu a sede de aplicar os preceitos cristãos na própria vida. Somos responsáveis por nós mesmos. Da postura de ‘professor’, emergiu o aluno sedento por conhecimento íntimo a fim de transformá-lo em sabedoria.

        Em suma: descobri que não adianta saber qual o caminho; torna-se imprescindível percorrê-lo.

        Este parto me levou à Doutrina que direciona á descoberta íntima, rumo ao potencial inerente do homem. O Espiritismo que nos alerta sobre a responsabilidade do homem pela vida íntima e social. Notei o Espiritismo como conjunto de princípios a fomentar verdadeira Cidadania Espiritual, e, com base nisso, nasceu a vontade de escrever este livro.

        A reflexão doutrinária tende a levar à leitura cuidadosa, a fim de analisar cada pensamento ou idéia aqui defendida. Obviamente, o erro é natural em qualquer trabalho. Equívocos poderão ser aqui defendidos. Todavia, cabe ao leitor filtrá-lo. Mas o medo de errar não será empecilho a divulgação destas conjecturas.

        Duvidem, critiquem. É natural e necessário que assim seja. O contrário é que é perigoso.

        Que Jesus nos ilumine a mente!

 

 


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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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2 respostas para CONSIDERAÇÕES INICIAIS

  1. Márcia Magalhães disse:

    Ricardo, parabéns pelo despojamento do orgulho e da soberba. Acabo de ler as considerações iniciais e muito me interessou. Pretendo continuar a leitura. Gostei bastante da sua humildade em assumir que conseguiu promover o desenvolvimento do intelecto, porém faltava-lhe o aprendizado pelo espírito e pelo emocional. O que de fato lhe promoverá reforma íntima. A você e a todos que se dispuserem. A mim, se me dispuser. Comentarei a medida que for lendo, se me permite. Um grande abraço!

  2. Renata Magalhães disse:

    Ricardo, ler estas considerações me deixaram muito emocionada, primeiro quando você relatou a minha prima Sheila e segundo por saber que mesmo sabendo de toda a doutrina nós temos que viver a doutrina para que possamos adquirir maturidade. Obrigado por esta oportunidade! Paz e muita luz!

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