MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO

“Tornou pois a entrar Pilatos no Pretório e chamou Jesus e disse-lhe: Tu és rei dos Judeus? Respondeu-lhe Jesus: Tu dizes de ti mesmo, ou foram outros que te disseram de mim? Disse Pilatos: Porventura sou eu Judeu? A tua nação e os pontífices são os que te entregaram nas minhas mãos; que fizeste tu? Respondeu Jesus: o meu reino não é deste mundo; se meu reino fosse deste mundo, certo que os meus ministros haviam de pelejar para que eu não fosse entregue aos Judeus, mas agora não é daqui o meu Reino. Disse-lhe então Pilatos, logo tu és Rei? Respondeu Jesus: Tu o dizes que eu sou Rei. Eu para isso nasci, e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade; todo que é da verdade; ouve minha voz. Disse-lhe Pilatos: Que é a verdade? ” (João XVIII: 3; 37) (Grifei)

Jesus ante Pilatos

 

Esta passagem evangélica apresenta o encontro de duas personalidades históricas: Jesus e Pilatos. Nesta oportunidade, podemos detectar a dúplice forma de governar os interesses da comunidade e como se conquista e usa o poder.

Certamente aqui encontramos uma aula pragmática sobre o poder real e o ilusório.

Ao dizer que veio dar testemunho da verdade, Jesus alerta para o fato de que, ao contrário do poder terreno, a sua autoridade não está baseada em ilusões, e, como tal, o seu reinado é imperecível.

Ao assumir a condição de Rei, Jesus diz que “o meu reino não é deste mundo.” Certamente, fala não só sobre a vida espiritual, sobretudo realça o mundo que Jesus governa. O mundo de Pilatos é o da mentira, da hipocrisia, da ilusão, do jeitinho; o de Jesus, o da verdade, do mérito, da autoridade moral.

Por outro lado, a Doutrina Espírita nos esclarece que o mundo espiritual é a nossa pátria. Quer dizer, na essência, não se é brasileiro, japonês, italiano. A personalidade, sim; mas o espírito não. Já vivemos em outros países, através do processo da reencarnação. Numa encarnação, o indivíduo pode ter sido comandado num país que nem mais exista; noutra encarnação, assume o poder terreno. Usamos o poder ou nos submetemos a ele como envergamos o corpo físico, sempre de forma precária e mutável.

Isto explica o fato de que, apesar de palpável, o mundo material não deixa de ser ilusório. A matéria como o poder  é transitória. O poder do imperador, do governador ou do presidente é precário, principalmente no que concerne aos súditos, aos administrados. Os administrados de uma nação são transitórios. A precariedade recrudesce quando se pensa que a mente é secreção do cérebro, sem qualquer expectativa futura. Ora, se a morte é o fim, o poder desfruta de prazo determinado. Mesmo que os imperadores se denominaram ‘deuses’, o seu corpo apodreceu.

Da mesma forma que o corpo, o poder terreno é transitório e perecível, geralmente alcançado através da violência, por negociatas, artimanhas políticas e manipulação eleitoreira. Alguns entregando outros, como os pontífices fizeram com Jesus. Processo podre que caracteriza a degenerescência da matéria.

Na passagem evangélica em epígrafe, nota-se que Jesus foi entregue a Pilatos por artimanha política. As evidências são que Pilatos não tinha a pretensão de processar, muito menos condenar o Galileu. Mas a própria nação Judia e os sacerdotes hebreus o entregaram o nazareno, tudo pelo medo de “perder o poder”. Os sacerdotes eram a elite religiosa da época. Mas negociavam os seus cargos com o poder romano. Aparentemente cuidavam dos interesses do povo judeu; mas em verdade procuravam apenas se manter no poder, em conluio com os romanos. Temerosos, entregaram o Messias.

Ainda hoje, muitas instituições são representadas por pessoas sem princípios, indicadas politicamente sem qualquer mérito. Assim, preocupam-se a todo custo se manter no poder. Enfim, quem desfruta do poder terreno, não raro faz de tudo para nele se manter, sem atentar para a ética. A conquista do poder terreno obedece a parâmetros falaciosos.

Urge destacar, na passagem evangélica acima citada, outro exemplo da precariedade do poder terreno. Jesus foi levado à presença de Pilatos para averiguação. O objetivo era constatar a prática de algum crime por parte de Jesus. Dentre outras infrações, Jesus estava sendo acusado de se intitular Rei, tanto que Pilatos pergunta: Tu és rei dos Judeus? Interessante notar que ao responder Jesus demonstra a fragilidade do Poder Imperial, como hoje ainda se mostra frágil o Poder Judiciário. Jesus responde com outra pergunta: Tu dizes de ti mesmo, ou foram outros que te disseram de mim?

O poder judiciário não se sustenta, pois calcado em técnicas, presunções, indícios. O magistrado ao presidir um processo acusatório não conhece as circunstâncias do crime; geralmente não desfruta de condições técnicas para desenvolver o seu trabalho; nem sempre conta com peritos preparados; raramente tem conhecimento acerca da personalidade humana. A condenação quase sempre se alicerça em testemunhos. Além do mais, o julgador se encontra preso à lei em sentido restrito do termo, não tendo coragem para usar a equidade. O profissional do Direito sai da Faculdade com o seguinte cabresto: equidade é recurso exclusivo para lacuna da lei. Com isso, todo seu julgamento é baseado naquilo que os outros dizem ou documentam. E pior: preso à lei restrita, sem atender os princípios gerais de direito, ou a justiça do caso particular. Mesmo que injusta, prevalece a lei, corroborado pela prova alheia à fiscalização do magistrado.

Prova disso são as entrevistas concedidas por juízes a se defenderem diante de algum caso de impunidade ou condenação absurda: tem que mudar a lei! Um jogo de empurra.

Enfim, quantas condenações ou absolvições injustas por conta de influências externas.

E o poder eterno? E a justiça divina?

Bem, aí é diferente.

A lei de reencarnação explica que muitos homens podem ser condenados ou absolvidos injustamente pelo poder terreno, não pelas leis imutáveis gravadas na própria consciência do homem. Assim, toda e qualquer enfermidade tem as suas causas. Algumas, a raiz se encontra no passado remoto. Quantas doenças congênitas encontram seu fundamento no pretérito? O hospital não precisa das grades para ser uma prisão. Tem certas enfermidades que nem o dinheiro proporciona a cura, muito menos a influência de personalidades terrenas.

Conclui-se daí que a vida terrena só encontra fundamento na vida espiritual. O corpo é importante pelo abrigo que confere ao Espírito. Aquele que cuida dos interesses da alma, vive a vida sem conferir à matéria o valor que ela não tem. A verdadeira vida é a espiritual, absoluta e permanente. Como a verdade, a vida espiritual é imperecível. Nela toda autoridade, todo poder, decorre da verdade, do mérito pessoal.

A conquista do poder eterno é diferente. O poder que se conquista pelo mérito e é imperecível, porquanto baseado na verdade. A verdade é alcançada por mérito pessoal, cujo poder é infalível e incondicionado. Realeza real é aquela comprometida com o bem comum e não de os interesses de alguns.

Com a afirmação ‘O meu reino não é deste mundo’, Jesus aponta para a vida real e para o verdadeiro poder.

Por fim, a Doutrina Espírita elucida que a atuação de Jesus é decisiva. O seu poder é incomensurável. Ele foi designado por Deus como co-criador, como Governador do Planeta Terra.

Nosso Protetor Espiritual.

Como Governador Espiritual da Terra, conhece as Leis Universais. Ele conhece todas a intimidade das leis naturais. Os seus feitos não devem ser considerados milagres na acepção restrita do termo, como derrogação das leis Universais. Apenas Ele conhece a matéria em sua essência, não só como algo ponderável, como energia. Sempre conheceu o que hoje a Física Quântica vem descobrindo. Milagre como revogação das leis naturais não há, mas desenvolvimento das faculdades humanas.

Além do mais, além de conhecer profundamente o mundo material, o Nazareno conhece a intimidade do homem, especificamente a sua fragilidade perante as paixões, sobretudo a ânsia pelo poder. Conhece não somente o mundo material, principalmente a vida psíquica.

Um dia, o homem perceberá que o poder terreno não vale por si só, mas nos é conferido por Deus para beneficiar o semelhante; e entenderá que Jesus não respondeu a pergunta de Pilatos (O que é a verdade?) pelo simples fato de que bom-senso não se comprova e a maturidade se conquista.

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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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