INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

“De todas as liberdades, a mais inviolável é a de pensar, que envolve a liberdade de consciência. Lançar condenação aos que não pensam como nós, é querer essa liberdade de consciência para si e recusá-la para os outros[1].

Por qual motivo o codificador foi tão cuidadoso em admitir o caráter religioso do Espiritismo?

Certa vez, interrogado por um sacerdote, Kardec respondeu: “…que não somos ateus, o que de nenhum modo implica em que sejamos religiosos.” Sobre o motivo de o Espiritismo não ser Religião, elucidou: “Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem”.

Somente em dezembro[2] de 1868, o mestre lionês concluiu: “No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto”. (Grifado pelo autor) Vale considerar que esta conclusão veio à tona nos últimos meses de vida de Allan Kardec, obviamente após reflexão madura.

Agora, será que o real motivo foi a insuficiência do vocabulário? Ou, de fato, o Espiritismo não pode ser considerado como religião?

Faz-se necessário refletir.

O termo religião é vulgarmente inseparável da idéia de culto, sacramentos, hierarquia sacerdotal. Nesse sentido, inegavelmente a Doutrina Espírita não pode ser considerada religião. Agora, não se pode descurar o caráter religioso ou teológico da Doutrina, que se baseia nos ensinos revelados pelo plano espiritual, e, como tal, transcendental.

Em princípio, não há dúvida de que a Doutrina Espírita é uma revelação, fruto da atuação providencial e transcendente da Espiritualidade. Apenas não defende a fé cega em preceitos religiosos.

As conseqüências morais do ensino dos espíritos e a concepção Divina do universo não servem, por si só, para qualificar a Doutrina como religião. A Filosofia assim o faz no campo da ética. Só que esta se dirige ao intelecto, ao passo que a religião espírita analisa estas regras sob a luz do amor, ou seja, numa atuação empática, como fizera Jesus Cristo há mais de dois mil anos.

Emmanuel[3] sintetiza:

“Enquanto a Ciência e a Filosofia operam o trabalho da experimentação e do raciocínio, a Religião edifica e ilumina os sentimentos. As primeiras se irmanam na Sabedoria, a segunda personifica o amor, as duas asas divinas com que a alma humana penetrará, um dia, nos pórticos sagrados da espiritualidade”. (Grifado)

O amor é o fundamento da Doutrina Espírita, ou seja, nas palavras de Kardec[4]:

´Amemo-nos uns aos outros e façamos ao próximo o que quereríamos que eles nos fizessem´. Toda religião, toda moral estão encerradas nestes dois princípios..” (Destacado pelo autor)

Então, se não há como descartar a face religiosa, por que o codificador relutou tanto em admiti-la?

Sem dúvida, por conta da intolerância religiosa.

No Evangelho[5] consta que:

“É um fato indiscutível que as guerras de religião sempre foram as mais cruéis e as que fizeram mais vítimas que as guerras políticas e que em nenhuma outra foram praticados tantos atos de atrocidade e de terror!”

Para corroborar referida tese, forçoso é considerar alguns relevantes fatos históricos.

Além de Kardec ter sido morto em 1415, na fogueira inquisitorial como Jan Huss, talvez o fator primordial a desprestigiar o aspecto religioso pelo mestre foi a decepção sofrida por ele sofrido no Instituto em Yverdon, ao testemunhar o fechamento da instituição educacional pela intolerância religiosa de alguns de seus membros.

Zêus Wantuil e Francisco Thiesen[6] evidenciaram que:

“A desinteligência religiosa entre Pestalozzi e ex-professores do Instituto, todos dedicadíssimos à causa da Educação, devia ter chocado o ânimo de muitos alunos, entre os quais se incluía Denizard Rivail, em cuja alma ficaria gravado para sempre o lamentável espectáculo da ‘despedida’ de Niederer”. (Realce pelo autor)

Como ratifica o jornal CONSCIESP[7]:

“Talvez, até, sob as sombras do castelo do Instituto, tenha cogitado uma reforma espiritual que fizesse desaparecer ódios religiosos e reunificasse o Cristianismo,…. Em 1824, Pestalozzi, já velho e esgotado, providenciava o fechamento do famoso instituto, em decorrência dos incontáveis sofrimentos morais por que passava”. (Destaque pelo autor)

Assim, há indícios sérios de que a questão não é apenas terminológica. Há indícios de que a intolerância religiosa que o queimara em praça pública e que testemunhara no instituto em Yverdon foi a causa principal de Kardec patentear o espiritismo como ciência e filosofia. E com razão, vez que, grosso modo, a religião formal acredita em seus dogmas como verdade absoluta, sem abrir-se ao diálogo.

Infelizmente, a situação atual não mudou.

As religiões têm separado as pessoas, provocado dissensões e erigido guerras. Em vez do amor, dominam o ódio e o moralismo hipócrita. Ausência de espiritualidade; aprisionamento, em vez de libertação. Em pleno século XXI, o mundo assiste genuflexo à afirmação intolerante de Joseph Ratzinger[8]:

“…de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica”.

O espírita não pode, em tempo algum, usar a violência, mesmo que verbal, como meio de atuação.

A filosofia se fundamenta na razão. A religião espírita se diferencia das demais por não adotar ritos, sacramentos ou hierarquia sacerdotal. Além do mais enaltece a tolerância, reflexo do amor que se sacrifica. A filosofia envolve o intelecto. A religião espírita evolve o coração. O amor liberta e conscientiza, e não alimenta a pretensão de dominar. O Evangelho esclarece que[9]:

“A obediência é o consentimento da razão e a resignação é o consentimento do coração”.

Por mais que a Doutrina Espírita favoreça a obtenção da felicidade, o que se torna indispensável para alcançá-la é o amor inteligente.

Em suma, a Doutrina Espírita se baseia nos ensinos revelados pela espiritualidade a direcionar a postura ética, e, sobretudo, empática na sociedade. Luiz Signates[10] ilustra:

“Isso porque a tarefa fundamental do Espiritismo não é simplesmente a de divulgar os seus princípios, mas, sobretudo, a de criar as condições de possibilidade da sociedade fraterna e justa no mundo. E fraternidade apenas se faz a partir da aceitação da diferença e na pratica comunicativa do amor verdadeiro”. (Realçado pelo autor)

O Espiritismo não comunga a pretensão de impor idéias. O espírita não pode, mesmo inconscientemente, assumir a postura de ditador inflexível e insensível. Guerrear em nome da ‘pureza doutrinária’, pela fidelidade a Kardec, é desconsiderar o fato de que o codificador sempre sobrepujou, muito além do religioso, o aspecto filosófico da Doutrina.

O objetivo é conscientização da humanidade, não lavagem cerebral. Apesar da maior parte da humanidade se encontrar anestesiada, a meta é a lucidez empática.

O filme “O julgamento de Nuremberg” aborda o comportamento de pessoas que obedeciam as ordens de forma quase que inconsciente, sem refletir sobre seus atos. Nele se define o “mal” como falta de empatia.

Às vezes, abraça-se uma atividade evangélica para, inconsciente e em nome da salvação, controlar a vida alheia. Típico daqueles que são vítimas do complexo de superioridade, a dissimular enorme insegurança e notório orgulho.  O dogmatismo, como o autoritarismo, é campo fértil para nutrir e cultivar esta pretensão orgulhosa.

“O amor e a verdade estão unidos entre si, como as faces de uma moeda. É impossível separá-los. São as forças mais abstratas e mais poderosas desse mundo.” (Mahatma Gandhi)

“O dinheiro de Jesus é o amor. Sem ele, não é lícito aventurar-se alguém ao sagrado comércio das almas”. EMMANUEL[11]

“Amai muito, embora com amargos sacrifícios, porque o amor é a única moeda que assegura a paz e a felicidade no Universo. EMMANUEL[12]


[1] In Evangelho Segundo o Espiritismo. Coletânea de Preces espíritas. Item 51.

[2] Revista Espírita, Ano XI, Volume 12, dezembro de 1868.

[3] Emmanuel. In O Consolador – 23a. edição – Francisco Cândido Xavier – ditado pelo espírito Emmanuel

[4] In Evangelho Segundo o Espiritismo. Caridade moral e material. 9.

[5] Ob cit, cap. 23, item 15.

[6] Wantuil, Zeus e outro. In ALLAN KARDEC (Meticulosa pesquisa biobibliográfica), vol I. Rio de Janeiro, FEB, 1979, p. 73/74.

[7] http://www.espirito.org.br/portal/doutrina/allan-kardec-a-mensagem.html. Acessado 19/09/2007.

[8] In http://www.agencia.ecclesia.pt/noticia_all.asp?noticiaid=48595&seccaoid=4&tipoid=32. Acessado no dia 27.09.2007.

[9] Capítulo IX, item 8. Ob cit.

[10] Luiz Signates. In O espelho dos espíritas. Site cit.

[11] CAMINHO, VERDADE E VIDA. – Francisco Cândido Xavier – ditado pelo espírito Emmanuel – 7ª edição. P. 66*

[12] EMMANUEL – 5º livro de Francisco Cândido Xavier – em 1938 – 1º livro ditado por Emmanuel, 22ª edição. P. 23.

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Sobre Despertar Espiritual

"Desperta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá". Efésios 5:14
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